CAPÍTULO I

 Da sacada da sala, no último andar do apartamento, eu olhava fixamente para o céu naquela noite estrelada e linda. A lua minguante brilhava, e o calor do verão incendiava meu corpo. Apoiada no parapeito da sacada, eu ficava contando as estrelas do céu, observava as luzes da cidade, o movimento e as buzinas dos carros, as pessoas parecendo tão pequenas do 14º andar. Notei uma das estrelas, diferenciada por ser maior e mais brilhante do que as outras. Pensei comigo mesma: “Há! Como eu queria ser como essa estrela”! Mas na verdade, no fundo do meu coração, eu sabia que era pequenina e sem nenhum brilho.

 Morava há apenas um ano em São Paulo, mais precisamente do lado baixo do bairro Anhangabaú.

Antes eu morava em Goiás, em um orfanato.

 Para eu chegar aos 18 anos foi muito complicado, pois nessa idade já não podia mais viver no orfanato. E mesmo sendo uma criança bonita, não tive sorte em ser adotada por nenhuma família. 

 Saí do orfanato e arrumei emprego em um hotel como arrumadeira. Aluguei um apartamento de três cômodos para eu morar sozinha. Já havia terminado meus estudos até o último ano do ensino médio, mas o sonho de me formar em medicina, eu adiei.

 Fiquei apenas dez meses nesse emprego. Houve corte de pessoal e fui demitida. Retomei minha jornada de procurar emprego, porém estava muito difícil de conseguir.

 Saí da sacada, passei pela porta de vidro da sala. As minhas contas atrasadas se encontravam na mesinha de centro, incluindo o aluguel do apartamento, e isso já fazia dois meses de atraso. Desempregada, contas atrasadas, geladeira e dispensa quase vazia e o meu pensamento a mil por hora.

A dona do imóvel, uma senhora muito simpática, entendeu minha situação e aceitou esperar um tempo. Se totalizasse quatro meses de atraso não dava para ficar na estadia, e ela já estava me cobrando.

 Sentada no sofá vermelho da sala, lágrimas começam a rolar pelo meu rosto, descendo até a minha boca e sentindo o gosto salgado salpicando minha língua. Choro tudo que consigo. Choro até não aguentar mais. O relógio pendurado na parede entre dois quadros surrealistas marcava 22:00, é nesta hora que acabo deitando no sofá. Eu caí no sono.

.   .   .

 

 Vejo-me em uma mansão enorme. Quando olho pela porta de vidro: uma piscina grande. Ando até a piscina em passos curtos e lentos. Apenas ouvindo o barulho do salto do meu sapato de couro de crocodilo. Lá na piscina, vejo uma criança loira nadando. Ela se apoia no beiral da piscina e olha para mim.

— Oi, mamãe! — Ela sorri para mim.

— Oi, filha. Quer ir ao shopping fazer compras comigo? — Retribuo o sorriso enquanto aguardo o pensamento dela antes de me dar uma resposta.

— Quero sim, mamãe. Mas antes quero perguntar algo!

— Pergunte, filha.

— Cadê o papai? — Sua expressão de felicidade muda para um semblante sério e raivoso.

— Ele não está conosco, filha. Eu já te disse isso antes. — Respondo com olhos e fala triste.

— Mas eu quero o papai aqui! — Ela salta para fora da piscina.

Minha filha começa a gritar pelo nome de “papai”, perguntando “onde ele estava”.

.   .   .


 De repente, acordo assustada. Levanto num solavanco do sofá. Eu suava tanto que o suor chegava a escorrer pelo meu rosto. É segunda-feira, e eu olho para o relógio pendurado na parede da sala que marcava 8:35. Eu havia esquecido aberta na noite anterior, então a luz do sol entrava pela janela da sala. Levanto-me rapidamente do sofá, esticando os braços e espreguiçando. Abro a boca de sono e esfrego os olhos com o dorso das mãos.

 Olho na folhinha pendurada do lado da porta da sala. É 15 de janeiro de 2018: um verão muito quente.

 Caminho até o banheiro, onde escovo os dentes e tomo um banho rápido. Parada em frente ao espelho redondo da pia, me olho e percebo um cravo novo que nascerá do lado direito da testa. Passo um pouco de protetor solar no rosto para proteger minha pele branquinha dos raios de sol, decido também passar um creme para cravos no lugar indesejado. Maquio meu rosto com cor clara, escolho um gloss rosado para meus lábios e um rímel preto nos cílios.

 Vou até o meu quarto e coloco um vestido de verão longo até as canelas de cor preta e com flores vermelhas e azuis estampadas. Calço uma sapatilha preta. Borrifo meu perfume. Decido colocar os brincos de cor azul que ganhei de um amigo do orfanato. E no dia da despedida do orfanato, eu estive aos prantos por deixar pessoas que eu amava tanto. Penteio meu cabelo loiro ondulado e comprido até minha cintura, prendo-o em um rabo de cavalo.

 Pego uma pasta cheia de currículos na primeira gaveta da cômoda do meu quarto. Tiro um da pasta e analiso-o. Um currículo pobre: consta apenas o ensino médio completo, uma experiência profissional e dados pessoais. Percebo o quanto aquele dia ia ser longo e complicado procurando emprego.

 Pego minha bolsa, as chaves do meu apartamento e saio. Vou andando até o metrô para pegar o trem até a Consolação, local escolhido para procurar emprego.

 Fico a manhã toda de agência em agência, comércio em comércio, empresa em empresa, deixando currículos sem mesmo aparecer nenhuma entrevista de emprego ou qualquer resquício de esperança de arranjar um.

 Paro em uma lanchonete para comer algo, pois não tinha tomado café da manhã, e meu estômago roncou muito quando já era meio-dia. Compro um lanche e um suco com os últimos reais que sobrou em minha carteira, apenas deixando separado o dinheiro do metrô. Descanso por uma hora na lanchonete e volto à rotina de procurar emprego. Fico até às 17:00 horas nessa rotina, quando todas as agências de emprego se fecham.

 Paro em uma pequena praça na Rua Augusta e sento no banco para descansar. O sol com o calor de quase 30º acabam com o meu corpo. Suava muito e com certeza o desodorante já não dava mais conta. A única coisa que passava na minha cabeça naquele momento era ir para casa e tomar um banho frio.

 Ando um pouco pelo parque, olhando para o verde das árvores e sentindo o aroma de terra e mato. Volto para o portão por onde entrei. Do outro lado da rua, vejo uma placa em neon com a descrição, “Boate Azul Estrelado”. Lembrei-me das estrelas que havia visto no céu ontem à noite. Quando pisco os olhos duas vezes, e vejo outra descrição, “Horário de funcionamento das 19:00 às 4:30”.

 Voltei para o parque e fiquei lá sentada no banco, pensando quão complicado é arrumar emprego com um currículo tão pobre em mãos.

Me levanto e penso em deixar um currículo nessa boate. Parecia ser uma boate grã-fina e chique. Quem sabe consigo emprego de garçonete ou arrumadeira...

     Mas sento no banco da praça de novo.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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